quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Nunca mais saiu da minha boca...

... o gosto amargo da palavra traição.

E a dor que você causou, garoto, ultrapassa a barreira do tempo e continua me afogando em ondas de um mar agitado. A madeira envelhecida das paredes que sustentam nossa cassa, dia após dia, torna-se repleta das marcas de furos que sustentavam quadros e fotos de nossa triste realidade. Você estragou tudo. Essa frase ecoará em seus pensamentos até que seus olhos cansados desistam de lutar contra o sono, mas no dia seguinte será novamente sua certeza. E olhos jabuticaba não serão seu bom dia, e perfumes adocicados não serão agradáveis, e o contraste da pele branca nos compridos cabelos negros se repetirão, como já se repetiram, mas você nunca mais encontrará o caminho de volta para a sua paz. Mas eu sei que a simplicidade da rotina que desfalecerá seu coração e ele se despedaçará em pedaços que nunca poderão ser colados, você desejará que nunca sejam. O copo da bebida amarga não te fará esquecer a silhueta imperfeita nas mangas compridas da camisa que havia sido atirada ao chão, e você quebrará o vidro barato causando uma marca na parede, por saber que seu vício também causou isso. O riso fácil, leve, descontraído, fará morada em qualquer lugar que não seja teu abrigo, porque se foi e não voltará quem a risada te tirava sorrisos e fazia o mundo se reduzir a esse encanto. Encanto que você destruiu. Só restará o amor falho, despedaçado que você abandonou as traças por valorizar tão intensamente a necessidade de se mostrar forte, indiferente. Sua indiferença levará o brilho que havia em seus olhos ao encontrar todos os motivos em um sono leve e calmo de quem dormia ao seu lado, confiando que estava em segurança. E por fim, restará apenas os planos rabiscados em guardanapos na mesa de um fast-food barato. Os planos desenhados em folhas de papel machê, delicadamente estruturados em sua mentira diária para quem só soube amar. Planos escritos em letras redondas num antigo caderno de desenho infantil, tecendo um futuro que, graças a você, nunca vai acontecer.

domingo, 19 de julho de 2015

5.184.000 segundos

Eu apaguei suas mensagens, eu deletei suas mentiras. E me irrita pensar que mesmo depois de tudo, o seu olhar cruzado ao meu, o toque da sua mão na minha cintura ainda causam um choque que percorre todo o meu corpo e me tira da realidade por alguns segundos. E as músicas que eu escolhi para você tocam no modo aleatório enquanto eu me recuso abrir a janela e encarar meu rosto no espelho. Você prometeu, mas quem não promete? E não é por que eu me habituei a escuridão que você precisava apagar a única luz acesa. Mas é o que dizem, o sol não pode se aproximar demais ou acabará te queimando. E foi bem assim que me você surgiu. com sua luz inabalável e seu sorriso torto iluminando tudo que estava imerso em sombras, afastando para longe fantasmas e demônios que assombravam meus pensamentos. Habituada com as lágrimas antes do sono, hoje de manhã eu perdi o sono para elas. Tanto faz, você é o erro que eu nunca mais vou cometer, o problema que eu não quero ter. E todas as fotos continuarão no mesmo lugar, perdendo a cada dia seu significado. E as músicas continuarão tocando sem rastro de seu rosto em qualquer lembrança. Você é um padrão, um círculo vicioso que preciso romper. Mas a lembrança da sua mão entrelaçada a minha apaga a raiva e causa um corte exposto, uma dor aguda que me faz acreditar merecê-la. Eu nunca poderei dizer quem está certo ou errado, o que foi real o que foi inventado. As mentiras já não fazem diferença, o resultado final é imutável, não podemos mais escrever essa história. Também tirarei seu nome das minhas histórias e me distanciarei de sua ausente lembrança, que vai esmaecer até se tornar nada. Quem te deu o direito de bagunçar a minha vida assim, dessa forma? Eu tentei me manter afastado, mas você me conhece, eu faço tudo errado. Eu tentei te afastar, mas suas fáceis palavras me traziam pra perto e eu não conseguia me impedir. Eu te queria tanto. De repente um flash desconexo passa diante dos meus olhos e eu me pego sorrindo, lembrando mais uma vez não tiramos nossa foto e nem vamos tirar... é inútil registrar o que se quer esquecer. E eu estava certar quando disse que te encontraria sem lágrimas de emoção como no final de um romance literário qualquer, mas apenas um corte seco dizendo em poucas palavras que era tarde demais. Sempre foi tarde demais. E as muitas cartas que te escrevi sem coragem de entregar, queimarão linha por linha até não sobrar nada que diga que um dia  você esteve aqui, tão próximo, tão disposto e tão igual a tudo e todos.

quinta-feira, 11 de junho de 2015

744 horas...



Poderia escrever setecentas e quarenta e quatro coisas que mudaram nos últimos dias, no último mês. Esse é o número exato de motivos para que tudo esteja assim. Para que quem olhe de longe saiba que dez anos ou mais se passaram para que tudo esteja exatamente assim. Rugas embaixo dos olhos, resquícios das lágrimas que já não caem mais; quilos a mais ou a menos de acordo com a perspectiva dos expectadores, o mundo se mostra em seus detalhes. Estou sorrindo, meu caro amigo, e a culpa é sua. Extasiada de vida e de minhas próprias insanidades, que de loucas não tem quase nada. Posso dizer que a simplicidade brilhou aos olhos escurecidos e devolveu seu tom de mel. A serenidade apagou pesadelos e ao mesmo tempo tirou o sono, porque ninguém pode dormir enquanto sonha acordado. O sono é um desconhecidos nas últimas 744 horas. Quantas perguntas foram feitas nos quarenta e quatro mil seiscentos e quarenta minutos que se passaram? E muito mais importante que a pergunta, quantas respostas foram encontradas? Quem se importa? Somos tão jovens... E quem diria que setecentas e quarenta e quatro horas são equivalentes a uma volta de trezentos e sessenta graus. Tem o mesmo peso das decisões difíceis, o mesmo preço de uma barra de chocolate em um dia realmente difícil. E a tela do celular ilumina o quarto escuro enquanto um sorriso desenha-se nos lábios ressecados do frio. Por todos os lados as horas inundam os pensamentos e eu continuo contando os minutos para as próximas 744 horas.

sábado, 25 de abril de 2015

Solidão...

... Hora da colheita pra quem semeou vento.

Há quem se incomode com a minha solidão. Que não entenda sua necessária presença para que os pensamentos se organizem no silêncio do apartamento mal iluminado. Há quem se ocupe em ser egoísta em suas próprias opiniões e decida decidir pelos outros. Também há aqueles que compartilham a solidão apenas quando ela é nociva, doente e sulfúrica, um veneno que se toma devagar, em doses amargas. Mas eu gosto da minha solidão, porque ela não vem da tristeza ou da alegria, mas na intensa necessidade de nem sempre estar junto e nem sempre estar só; ela existe na equação da média dessas duas medidas. Estou sempre aberta a solidão, tanto minha como de quem não pode lidar com a própria, sendo assim, sempre estou disponível a me expor a radiação nociva e desagradável da ingratidão. A solidão não me assusta por que para mim não se trata apenas de fica só, mas de estar unicamente em minha presença e entender em totalidade de meu confuso e complicado modo de ser. Quem tem medo de solidão é aquele que encara estar só como algo doloroso, daquele que precisa do outro para se completar a qualquer custo e de qualquer forma... Daquele que deixa restos. Restos de pessoas, de sentimentos, de relacionamentos... Dos parasitas. Solidão. O olhar para dentro que reflete o que há lá fora e se o que existe é o vazio do que é superficial, ele salta aos olhos e causa pânico. Faz para qualquer lado em busca de alguma companhia para beber bobagens falando besteiras. Se está tudo bem, então fica tudo bem, até que esteja sozinho novamente e o ciclo desesperado pela cura dos sintomas reinicie, sem nunca sequer entender sua causa. Mas ela sempre volta, a solidão é uma velha senhora que não gosta de ficar sozinha.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Balões



Estamos suspensos no ar. Balões coloridos nos protegem do solo castigado e nos levam para longe, sempre para um lugar melhor. Evitam a queda que a realidade impõe e nos entregam a ela quando os deixamos ir. E que estes balões aceitem a responsabilidade de serem aqueles que vão nos salvar de vez em quando das lágrimas afiadas que vem com o silêncio, do medo da estrada incerta, do nó que aperta a garganta e faz latejar o coração. Que sejam mais fortes que as âncoras que anseiam por nos afundar nas águas de um mar escuro e frio, longe do calor do sol. Balões de festa. As luzes se apagam indicando o final do baile. As luzes se acendem indicando o começo de um novo dia. Nada mudou desde então, mas tudo deixava uma aguda melancolia de um querer sem tamanho. Havia luz, música, serenidade e harmonia. Nada estava confuso, nada conseguiria destruir a segurança daquela fortaleza construída com balões. Olhar para trás e enxergar na estrada o que nos trouxe até aqui. Olhar para frente e enxergar no futuro a certeza de não estar só. São pequenas constatações que nos transbordam. Um coração acolhido flutua por aí.  

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Desfiado

Ontem à noite eu cometi um erro grave, daqueles que você confessa baixinho para que não te olhem com desprezo ou raiva. Um erro triste, cheio de mágoas, de lembranças e de vontade de voltar atrás. Um erro severo, que trouxe a luz todos os outros que eu quis esconder na sombra do meu orgulho. Abri uma caixa de pandora repleta de recordações de vidas passadas, que já não são minhas. E eu ri de piadas que já não tem graça e chorei algumas lágrimas de saudade... E desejei que alguns que se foram estivessem aqui. Aquela incrível montanha russa que somente a adolescência te permite, de sentimento e impulsos justificáveis pela fase, mas que no drama pessoal se tornavam fatal realidade. Eu queria voltar. Quanta saudade e quanto querer o passado me deixou e quantos erros bobos eu já não cometi que se tornaram irremediáveis. E a falta do perdão em meu coração é a falta do perdão no coração daqueles que eu tanto sinto saudade. Queria dividir minhas conquistas e meus medos novamente com a garota loira que sempre esteve ao meu lado nas janelas de print do msn, mas que se foi assim tão de repente, sem querer explicações, sem sequer querer ficar. Queria só mais uma conversa com piadas ácidas com o vizinho da melhor amiga, que me fez viva, me fez grande, me fez forte. Que via além do simples, das palavras, da insignificância Queria me desculpar, dizer que foi necessário, que naquele momento eu não tinha saída e nem escolha e nem pensava. Queria o moço das caminhadas no parque, trocar mensagens sem sentido e ter alguém com quem contar, alguém pra visitar e para planejar filmes, ouvir músicas e crescer junto. Queria sentir saudade sem sentir falta e que o passado não fosse tão determinante no futuro, que de madrugada eu ainda tivesse apoio, que o Natal ainda fosse especial e que o seriado que nunca se encerra fosse um elo eterno. Queria que eles, mais do que ninguém, lessem esse texto que não fala apenas sobre os meus amigos, mas dos amigos que perdemos para longe nessa vida. Das rotinas que deixamos, dos erros que cometemos e que desejamos com todo o coração que alguém nos desculpe para vivermos em paz. Quais perguntas nunca foram feitas, qual foi um instante exato antes da mudança? E como olhar para trás se a vida só nos permite andar para frente? Como deixar os olhos marejados se no dia seguinte o sorriso deve consumir meu rosto como uma tatuagem? Porque na sua colação eu estava e na sua formatura também, e quando você começou a trabalhar eu te dei os parabéns e no seu aniversário eu também fui, e eu sempre estava lá, eu sempre torci por você. E quando você terminou eu te ajudei, e quando você engravidou eu fui uma das primeiras a saber e quando seu filho nasceu eu também estava lá. E quando você decidiu ficar eu apoiei, e quando você aprendeu a dirigir eu saí com você, e quando você começou a namorar e comprou seu apartamento eu te dei os parabéns. E eu queria vocês na minha formatura, contar do meu novo emprego, reclamar da minha vida monótona, perguntar se concordam ou não que eu mude de cidade. Saber se sentem a minha falta também e se as vezes pensam que as coisas poderiam ter sido diferentes, talvez melhores, talvez ainda juntos. Essas não são palavras para um blog de crônicas, essas são palavras para um e-mail de perdão, de justificativa ou de dúvida: o que foi que nos aconteceu, será que você poderia deixar para lá? E eu sei que vocês nunca chegarão a ler, porque não existem meios que nos conectam mais. Rompemos todos os fios.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2015

Cacos de Vidro.

Eu não suporto a incerteza, a dúvida do possível e do impossível. O presente incerto, o passado mentiroso, o futuro se desfazendo. Eu não suporto a dúvida. Se vamos ficar juntos, se vamos nos separar. Se você me ama, se você me quer bem. Se sente minha falta, se tem vontade de ficar comigo, se sente medo de me perder, se pensa em mim quando vai dormir e quando acorda de manhã, se se pega olhando para o nada imaginando meu sorriso e meu beijo molhado no canto da sua boca. Eu não suporto a insegurança. Se você ainda vai me amar amanhã, se me amou ontem, se algum dia me amou. Se ainda faz planos, se me ve acordando ao seu lado todos os dias para os restos deles, se ainda imagina o rosto de nossa filha ou planeja nossa viagem para Disney. Eu não suporto o passado. E a falta de reportagens de jornal recortadas em forma de plano de futuro, os desenhos rabiscados de meu rosto nos seus cadernos velhos, as ligações na madrugada só pela saudade de uma voz que logo estará ali. Os ursos, as cartas, as músicas. Eu não suporto o medo. Medo de que tudo tenha se acabado, medo de ser mentira ou de não ser mais verdade, medo da distância. Medo de viver uma realidade que não existe e que meus sonhos tornem-se pesadelos dos quais eu não poderei acordar. Eu não suporto amar você. O amor é o sentimento mais traiçoeiro, que me deu tudo e não deixou nada. Se eu nunca tivesse te amado não haveria pelo que sentir saudade, não haveria lembranças a se recordar, nem planos, nem pretérito, nem futuro e nem presente. Se eu nunca tivesse te amado agora eu estaria em outro lugar, com outras pessoas, vivendo uma outra vida. Talvez amando outro alguém, deitada na cama de casal do apartamento dele e não do seu. Ah se eu não tivesse te amado... com todo meu coração e com todo meu ser. Se não tivesse corrido para te encontrar em cada vez que você voltava, ou guardado cada um dos presentes e cartões para reler ao som do silêncio que você sempre deixa quando se vai. Se não tivesse dormido em seus braços, provado seu gosto e vivido seus gostos. Se eu não tivesse viajado ao seu lado, conhecido novos lugares, jantado a luz de velas, te ajudado a escolher roupas, te levado em lugares chatos e legais. Se eu não tivesse sido a primeira a andar no seu primeiro carro, se não tivesse te apresentado meus amigos e conhecido os seus, se não tivesse te incentivado a procurar um emprego melhor. Ah se eu não tivesse feito nada disso. Eu não teria inspiração para escrever. Eu não teria vivido as páginas do meu romance. Eu não teria vivido. E a sua ausência nunca seria sentida, sua presença nunca seria notada. E as lágrimas seriam por motivos diferentes. E os medos seriam por motivos diferentes. Se eu não tivesse te amado eu não seria eu mesma, seria alguém longe dos meus sentimentos e pensamentos. Não sei se seria uma estrela de Hollywood, uma dentista no sul do país ou uma psicóloga em Minas Gerais. Não sei se seria melhor do que sou, mais feliz do que sou, mais triste do que sou, mais eu do que sou. Eu jamais teria caminhado nas praças de uma cidade, pela noite fria dos meses de inverno. Jamais teria entendido como é se sentir completa, plena, infinita. Se eu não tivesse te amado eu jamais teria sido infinita e eu se disso porque só você me faz infinita, só o som da tua voz, seus olhos multicores, seu cheiro adocicado e suas reflexões sobre a vida, sobre a morte, sobre nós. Se nunca tivesse havido o "nós" eu preferiria que não houvesse o eu.
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